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segunda-feira, 23 de junho de 2025

Amo Ser Nordestina

 

Amo ser nordestina,
não só quando chega o mês junino!
Amo de janeiro a janeiro —
no calor feroz que enfrentamos
ou nas chuvas fortes na época do “Caminhos do Frio”.

Amo ser paraibana!
Ah, Paraíba… meu amor.

Certa vez, cantei — e me disseram:
“Você até canta bem, mas seu sotaque é muito pesado…
Tente mudar. Vista voz de novela: Limpa, pequena, polida…
Se quiser respeito no que disser.”

Mas o que eu presenciei foi ainda mais duro:
Até se eu quisesse palestrar,
falar de algo sério, com estudo e fundamento,
meu sotaque talvez não trouxesse o respeito esperado.
“Paraibana vai falar sobre isso?”

E eu respondi: O que é que tem?
Já me formei, dediquei, estudei, pesquisei...
Qual a diferença?
Nenhuma. A não ser o orgulho de carregar
a minha bandeira do Nordeste —
a da Paraíba e de todos os nossos estados —
sempre comigo.

Repliquei mais uma vez:
“Oxe, de jeito nenhum!”
“De forma alguma!”
Deixe de ser fuleiro e respeite o sotaque nordestino,
que — independente do estado —
é uma das coisas mais lindas de se escutar.

Sou filha de Alagoa Grande,
terra que dança no pandeiro de Jackson,
que luta na memória de Margarida gigante.
Fui acolhida por Campina Grande,
onde estudei por muitos anos.
Hoje, vivo em João Pessoa,
que me encantou e me ensinou:
Aqui também é o meu lugar.

Falo: oxente, oxe, vishe Maria!
Tá danado! Mainha, painho, eita mulesta!
Tô aperreada. Vai avacalhar, é?
Sai daí, pirangueiro! Tô frescando. Tá massa!
Não precisa aplaudir — só não fique mangando.
Respeita, viu bichinho?
Porque isso é raiz, é cultura, é a nossa língua, macho!
E não tá errado, não!

Nossas gírias nordestinas são variações linguísticas.
Nosso sotaque é variante do português brasileiro.

Não me peça pra suavizar o que vibra no meu tom.
Carrego cultura, história e sabedoria
no balanço do forró —
e entre o dois pra lá e o dois pra cá,
vou vencendo as batalhas do dia a dia.

O Nordeste resistiu, persistiu e nunca se calou.
Seu povo tem calo na mão,
mas também tem brilho no olhar.
Sabe dar nó em pingo d’água
sem deixar escapar.

Fomos berço de Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos,
Bráulio Bessa, Gil, Caetano, Elba, Alceu,
Alcione, Ivete, Gonzagão e tantos outros do alto escalão. 
Mas também de muitos Zés e Marias,
que com um xêro e um cuscuz
te recebem com arte, coragem e poesia.

E olha que, nesses dias, mais uma vez
o preconceito bateu à nossa porta.
Uma backing vocal da dupla Zezé Di Camargo & Luciano,
durante um show em Floresta (PE),
disse que a nossa comida parecia “lavagem de porco”.
Ignorância embalada em desrespeito.
Mais uma vez, levantamos a voz.
Porque comida nordestina não é lavagem — é identidade.
É prato cheio de história, de força, de sabor.
É cultura que se planta, se cozinha e se serve com orgulho.

Então, moça,
você tem todo o direito de não gostar,
mas vem falar da gente, não, querendo inferiorizar
logo nós, que acolhemos com tanto calor
quem vem de fora com afeto e sabor.

Acho que é justamente o nosso jeito nordestino de Ser
que encanta sem precisar se conter
através do sotaque cantado, do espírito animado
da leveza no passo, do riso espalhado
Fora as belezas do nosso chão e do nosso mar
que fazem dessa região um dos destinos mais amados.

Muitos turistas vêm só pra curtir o verão —
mas acabam ficando, trocando até de estação.

Enquanto isso, tantos dos nossos,
principalmente em tempos passados, no período da seca,
migraram para outras regiões,
ajudando a levantar riqueza em outras bandas —
sendo explorados ou não,
porém nunca perderam a fé nem a sua missão.

Naqueles tempos em que o Nordeste sofria com a falta de amparo,
eles seguiram caminho.
E o fizeram não por escolha, mas por necessidade.
Mesmo assim, contribuíram — e muito — para o progresso de terras distantes.
Com trabalho, suor e resiliência,
foram pilares no crescimento de outras partes desse Brasilzão.

Agora, sem pantim, sem nariz empinado, sem julgar —
respeita esse chão sagrado,
e esse povo arretado.

Somos como o som da sanfona,
o toque da zabumba, do pandeiro, do triângulo,
que no peito retumba, batida afinada,
força do Nordeste, alma guerreada.

Somos cactos, mandacaru, xique-xique, umbuzeiro,
juazeiro e aroeira
nascemos no seco, mas florescemos primeiro.
O que parece espinho a quem vê de fora,
é luta de quem não cansa,
é raiz que se aprofunda e nunca perde a esperança.

E viva o Nordeste, viva cada canto, cada chão,
viva o povo que transforma coragem em expressão.
Viva quem é daqui, mas também quem chegou com gratidão,
quem ama, mesmo sendo de fora, essa terra com alma e coração.

Viva Santo Antônio, São Pedro e São João,
viva o calor humano, o forró, o bem que a gente tem na mão.
Viva essa cultura que pulsa sem separação,
que une o Brasil inteiro com festa, força e emoção.

Por: Fábia Layssa